O querer e o dever

Existe uma dicotomia no comportamento humano que tem sido a causadora de sensações de desprazer quase inevitáveis ao longo da vida. Freud desenvolveu esta reflexão em sua obra “O mal estar da civilização”, fundamentando-a na divisão que se impõe entre o que se quer e o que se deve. Para ele, isto se assenta no conflito existente entre o desejo instintual pelo prazer e a sujeição às regras que a sociedade estabelece para a sobrevivência do grupo.

Se, por um lado, existe a demanda pelo prazer imediato no desejo egoísta, por outro, existe a satisfação, dita secundária, em acatar as regras do sistema para ser aceito e protegido por ele. Tudo isso gera uma cota de pressão intrapsíquica, pela repressão do desejo primário que, conforme for administrado e elaborado pela pessoa, pode se transformar em sintomas neuróticos ou psicossomáticos. Não é à toa que estimamos que mais de 60% da população mundial seja neurótica.

Nietzsche vai apresentar essa idéia na simbologia do leão que deseja e do carneiro que deve, presentes em cada um de nós, apesar da prevalência histórica do carneiro que se submete para ser protegido pelo pastor.
Do ponto de vista da evolução espiritual, nosso querer não é estável, sofrendo o processo natural de amadurecimento. Ou seja, o que se queria quando éramos mais primitivos estava muito mais ligado às sensações físicas, naturais nos períodos inferiores de manifestação da vida humana.
Na medida em que a evolução tem se operado esse querer tende a se modificar, passando a estados cada vez mais sublimados, transitando das sensações para os sentimentos, desses para o amor altruísta, rumo às intuições mais plenificadoras.

Por outro lado, o dever também se submete a uma escala evolutiva. No princípio, por necessidade de contenção de nossos impulsos mais primitivos, ele se impõe fortemente, sustentado por submissões religiosas, patriarcais e sociais, muitas vezes desprovidas de sentido, mas que funcionam como um freio ao egocentrismo imediatista.

Na medida em que a evolução acontece, esse dever vai se tornando mais natural, mais racionalizado, menos imposto pela força e mais aceito pela compreensão. Até que acaba por se transformar em uma opção de harmonia com a ordem universal, não mais como uma submissão ao dever mas como um encontro que passa a fluir com as leis da vida.

Ora, tanto no querer que caminha para o amor altruísta e para as intuições plenificadoras, quanto no dever que se torna harmonizado com a ordem universal, parece haver um sentido de convergência onde a paz interior se realiza no encontro final entre querer e dever.

Contudo, se por um lado possa parecer confortadora a perspectiva do final desse conflito que Freud veio a chamar de o mal estar da civilização, a questão continua atual no trâmite de nossa evolução, onde nosso querer ainda é marcado pela sujeição ao dever, nos deixando as marcas das frustrações, e muitas vezes incertos se o que se quer é o que se deve, e se o que se deve poderá satisfazer nosso querer sem a instalação de conflitos neuróticos.

A sensação de culpa daí decorrente é muito natural, até funcional como um mecanismo de alerta, causando o que tenho chamado de “inadequação evolutiva”, um estado em que o indivíduo já pode aproximar mais seu querer do dever mas ainda se vê influenciado por pressões sociais sobre seu querer que acabam gerando um conflito interior.

Realmente difícil é separar nosso verdadeiro querer do querer introjetado pelas forças do sistema, e nosso dever justificável daquele que se impõe por mero capricho de pessoas ou convenções sociais e religiosas.

Penso que temos que racionalizar mais as motivações que nos movem, procurando entender os sistemas de crenças que adotamos sem maiores reflexões, a fim de nos tornarmos mais livres em nossas escolhas. Haverá sempre o risco de erros, e isso costuma amedrontar, principalmente pelas convicções de castigos e sofrimentos decorrentes. Mas podemos errar também por omissão e esta nos levar a estados sofridos de angústia e necessidade de reconstrução de situações que acabam por ficar paradas. O medo paralisa.

Entendo que todos somos aprendizes na escola da vida e que ninguém aprende sem errar e sem ter que refazer os erros em acertos. Mas aquele que não se exercita para não errar também não aprende. Fazer escolhas é natural da vida e não temos garantia alguma de que elas serão absolutamente corretas. Mas quando não forem, não nos preocupemos em demasia, a não ser o necessário para a reconstrução de novas decisões. Se erramos é porque não sabíamos fazer melhor, e receber as conseqüências do próprio erro é ser ensinado pela vida na aprendizagem de decisões mais corretas para o futuro.



por: João Carvalho Neto

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